A mais recente temporada de premiações, que culminou com a entrega do Oscar em dois de março, foi tão intensa que parece que alguns filmes não receberam a merecida atenção, apesar das várias indicações a diversos prêmios. Num ano de filmes longos – quatro dos cinco indicados na categoria Melhor Filme Internacional tinham mais de duas horas de duração – nosso destaque é outro destes filmes longos que ficou obscurecido pelos demais, apesar de ter sido indicado nas categorias de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Filme: “O Reformatório Nickel”.
A câmera começa funcionando como os olhos de uma criança, olhando de baixo para cima e prestando muita atenção aos detalhes, durante cinco minutos. Na sequência seguinte nosso protagonista Elwood (Ethan Herisse) já é um rapaz, mas a câmera subjetiva continua por mais 30 minutos, quando ela muda para o ponto de vista de outro detento do reformatório, Turner (Brandon Wilson), e passa a se revezar entre os dois – com exceção das cenas com um Elwood mais velho, que contam com anacrônicos computadores modernos, e são enquadradas para mostrar apenas as costas do personagem. É uma sensação estranha estarmos “dentro” do olhar dos personagens, mas é uma escolha ousada com a qual se acostuma facilmente.
Elwood foi pego no lugar errado na hora errada. Estava indo para seu primeiro dia numa escola técnica quando pegou carona com um ladrão de carros. O motorista foi preso e Elwood, considerado cúmplice, foi mandado para o reformatório.
Turner vem de Houston, Texas, e não se sabe o porquê de ele estar no reformatório. Isso não importa: o que importa é a amizade que Elwood e Turner constroem. Juntos, treinam boxe e fazem serviço comunitário, com Elwood anotando todas as tarefas para uma missão arriscada: pedir redução da pena. Conseguirão, juntos, enfrentar e vencer um sistema racista?
Alguém poderia afirmar que no cinema toda a câmera é subjetiva, e não estaria errado. A técnica de filmar como um ponto de vista de um personagem não é nova – já pode ser encontrada em 1927, no épico “Napoleão” de Abel Gance – mas é quase sempre desafiadora, por isso, em geral, prefere-se usá-la em cenas curtas. Mas o diretor e roteirista RaMell Ross se propôs este desafio de fazer um filme totalmente com a câmera subjetiva e foi muito elogiado por seus pares – como o diretor Barry Jenkins -, embora tenha saído do Oscar de mãos abanando.
“O Reformatório Nickel”: origem em romance
“O Reformatório Nickel” se originou num romance de autoria de Colson Whitehead, ganhador de um prêmio Pulitzer em 2019. RaMell Ross faz sua estreia na direção de longas-metragens com este filme. Sua proposta de nos colocar no lugar dos dois protagonistas foi elogiada por críticos, de modo que inclusive abocanhou o décimo lugar entre os 50 melhores filmes de 2024 na revista de cinema Sight & Sound.
Um dos chefes do reformatório, Sr Blakeley (Gralen Bryant Banks), diz que Elwood pode ter grandes sonhos e ambições, mas se Deus quer que ele varra ruas, ele varrerá ruas. Usar o nome de Deus para manter o status quo e impedir o progresso é uma técnica antiquíssima. Basta nos lembrarmos de uma lição escolar, de quando os reis absolutistas justificavam seu imenso poder como “vontade de Deus”.

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A época em que se passa a história nos é informada por um breve diálogo da avó de Elwood, Hattie (Aunjanue Ellis-Taylor), que menciona “o que aconteceu em Selma”, sobre a marcha por direitos de voto para pessoas negras ocorrida em 1965. Outro fato histórico mencionado muitas vezes é a missão espacial da nave Apollo 8, que aconteceu no final de 1968. Isso explica a existência de não um, mas dois reformatórios Nickel: um para garotos brancos e outro para negros. A segregação racial ainda era uma vergonhosa realidade nos Estados Unidos, sobretudo nos estados do Sul, mas vê-se que já existia um movimento para desafiá-la.
A avó de Elwood diz que “sua porção [na vida] é dor”. Turner afirma que dentro e fora do reformatório tudo é igual, só que dentro não precisam fingir. “O Reformatório Nickel” poderia ser um filme de bonitas frases feitas, mas é bem mais que isso. É uma ousadia, uma odisseia, uma experiência.