No círculo íntimo de Hitler

Passados mais de 80 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o mercado editorial vê uma profusão de livros que buscam entender Hitler através de pessoas que viveram ao seu redor.
26 de maio de 2015
Cena de Hitler em "A Queda", filme de 2010.
Filme alemão “A Queda” (2004). Hitler cercado de seguidores, em seu bunker, no final da guerra. Foto: divulgação.

No final dos anos 1980, dois historiadores-biógrafos escreveram: “ainda não terminamos com Hitler”. Passados mais de 80 anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, podemos concluir que a afirmativa continua de pé: nas prateleiras das livrarias dedicadas ao tema, o Führer ainda é o assunto predominante em livros escritos por jornalistas, historiadores e memorialistas. Já se tentou desvendar sua mente por análises psicológicas e já se explorou a sua relação com a arte, a música e a religião.

Mas, mais recentemente, uma nova onda de análises hitleristas tem tomado um novo caminho: os relatos da vida cotidiana. Como era Hitler no dia a dia? O que fazia, falava, comia, gostava? Como lidava com as pessoas? Quais eram os seus medos? Tinha algum hobby em especial? E nesta tendência, quem responde a tais perguntas são homens e mulheres que estiveram em seu círculo íntimo. É como se o leitor espiasse pelo buraco da fechadura.

No Brasil, recentemente, foram publicados O Pianista de HitlerO Piloto de HitlerSessão Nazista – a curiosa história do vidente judeu no círculo de Hitler e No Bunker com Hitler, baseado nas memórias de uma das secretárias pessoais do Führer (o livro originou o ótimo filme A Queda (Untergang, Alemanha, 2004).

Se procuramos por títulos publicados no exterior, encontramos muitos outros, como I was Hitler’s Chauffeur (“Eu fui o Chofer de Hitler”), The Hitler I Knew: Memoirs of the Third Reich’s Press Chief (“O Hitler que conheci: memórias do chefe de imprensa do Terceiro Reich”) ou Hitler was my friend (“Hitler foi meu amigo”), que narra a história de um fotógrafo particular de Hitler. Em 2011, também fez muito sucesso a pesquisa do historiador Roman Köster sobre o empresário Hugo Boss, apelidado de “o alfaiate de Hitler”.

Tal fenômeno – se é que podemos chamar assim – se apoia em uma inquietação: as grandes narrativas – especialmente as biográficas e históricas – ainda não conseguiram explicar Hitler satisfatoriamente. Pelo menos não da forma que uma parcela dos leitores (não-especialistas) espera. Daí, então, a avalanche de pesquisas e memórias sobre a intimidade do líder do Terceiro Reich. Esses trabalhos teriam o intuito de ampliar a nossa compreensão de Hitler através do olhar de personagens “menores” da história, secundários, quase invisíveis, nos permitindo observar nuances que as grandes narrativas ignorariam.

No círculo íntimo de Hitler 1

Se liga nessa história: logo depois da Segunda Guerra Mundial, Herberts Cukurs imigrou para o Brasil vindo da Letônia. Ele criou os pedalinhos da Lagoa Rodrigo de Freitas e refez a vida. Mas, em 1950, ele foi denunciado como criminoso de guerra nazista. Essa incrível história real é examinada pelo historiador Bruno Leal no livro “O homem dos Pedalinhos” (FGV Editora), que em breve vai virar filme. Confira aqui o livro, em formato físico e digital.

Amigos, parentes, advogados, motoristas, fotógrafos e outros tantos que conviveram com Hitler durante sua vida poderiam, assim, deixar seus lugares de figuração e dar contribuições valiosas. Esta perspectiva é tributária de movimentos historiográficos conhecidos, como “a história vista de baixo”, inaugurada no final dos anos 1960, especialmente depois dos trabalhos de E.P. Thompson, e também da mais recente “história do cotidiano”, bastante em voga em países como Alemanha e Estados Unidos.

Por que isso agora?

Esse tipo de abordagem parece alinhada com a reconfiguração das coordenadas de intimidade e privacidade no mundo contemporâneo. Começamos a última década com o boom dos reality shows, que elevaram a outro patamar a prática social do voyeurismo, e terminamos com o enorme êxito das redes sociais online, território cuja entrada e trânsito é livre desde que concordemos em ceder parte de nossa privacidade.

Nos últimos dez anos, aprendemos que ter acesso à intimidade e à privacidade é, antes de tudo, uma forma privilegiada e imprescindível de conhecer o mundo e as pessoas. Como a história faz parte deste mundo, também nos debruçamos sobre o passado e seus personagens a partir de prerrogativas deste tipo, o que não é a priori positivo ou negativo.

A sedução pela vida íntima do “outro” explicaria não só porque esse tipo de literatura sobre Hitler tem feito tanto sucesso agora como também o porquê do seu sucesso em si, para além do esgotamento das “grandes narrativas” da história. Mas será mesmo assim? Minha avaliação é que este é um caminho bastante arriscado. No caso de Hitler, parece-me enorme o risco de cairmos em uma história descolada de contexto histórico, construindo um personagem isolado de seu tempo, marcado apenas pela curiosidade, pela fofoca ou pelo pitoresco.

Não se pode negar que saber o que Hitler gostava de ler, o que fazia nos momentos de lazer ou que assuntos conversava com seu motorista particular pode nos ajudar a entender um pouco mais sobre sua concepção de mundo. Tais informações nos ajudam, inclusive, a desmistificar Hitler enquanto um ser situado fora do plano terreno. No entanto, esse tipo de informação tem um significado limitado. Ela não é capaz de nos explicar os campos de concentração, as decisões militares, o antissemitismo, as disputas de poder ou o ardor ideológico em torno do nazismo.

Pode ser que a historiografia ainda não tenha conseguido explicar plenamente as múltiplas dimensões de Hitler e do nacional-socialismo. Mas a história é exatamente esse processo de constante revisão, de contínuas redescobertas e, não raro, de avanços graduais e lacunas aparentemente eternas. Olhar Hitler pelo buraco da fechadura, adentrando virtualmente em seu círculo íntimo, é uma experiência, de fato, irresistível. Entretanto, é preciso tomar cuidado com o “voyeurismo histórico”. Seu recorte é estreito e deixa de fora muita coisa. Nós também ainda não acabamos com Hitler. Mas o que isso realmente quer dizer?

Como citar este artigo

CARVALHO, Bruno Leal Pastor de. No círculo íntimo de Hitler (Artigo). In: Café História. Publicado em 26 mai. de 2015. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/no-circulo-intimo-de-hitler/. ISSN: 2674-59.

Bruno Leal

Fundador e editor do Café História. É professor adjunto de História Contemporânea do Departamento de História da Universidade de Brasília (UnB). Doutor em História Social. Pesquisa História Pública, História Digital e Divulgação Científica. Também desenvolve pesquisas sobre crimes nazistas, justiça no pós-guerra e as duas guerras mundiais. Autor de "Quero fazer mestrado em história" (2022) e "O homem dos pedalinhos"(2021).

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