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“Aqueles Dias”: minissérie narra os antecedentes da Semana de 1922

Elenco de "Aqueles Dias".

Tássia Dhur (Anita Malfatti), Bruno Lourenço (Mário de Andrade), Ivan Arcurshin (Oswald de Andrade), Màrjorie Gêrardi (Tarsila do Amaral) e Johnnas Oliva (Menotti del Picchia) – crédito B2 Produções.

A chamada nos intervalos da programação da TV Cultura repetia as palavras do começo do primeiro episódio. Parafraseando: “guerra, polarização política e uma pandemia, além de inovações tecnológicas. Podia ser nossa realidade, mas são Aqueles Dias”. Os dias são na verdade os anos que antecederam a Semana de Arte Moderna de 1922, esta efeméride que já fez cem anos, mas que merece sempre ser celebrada por permanecer influenciando nossa cultura.

E o que há de novo para falar desta semana? “Aqueles dias'”, nova minissérie brasileira, descreve, com um toque moderno ao Modernismo, os anos que antecederam a Semana de 1922 focando no quinteto principal do evento: Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

A história começa em 1917, em meio ao esforço de guerra e à exposição de Anita Malfatti (Tássia Dhur) – que eu não sabia ser pessoa com deficiência – duramente criticada por Monteiro Lobato – ou “Lobs”, como o quinteto se refere a ele. À exposição se seguem o Carnaval e a gripe espanhola, e para combater a mentalidade tacanha que prevalece, começam a planejar um evento chocante.

A série abraça o anacronismo ao colocar nas mãos dos modernistas dispositivos móveis como tablets e, sobretudo, smartphones. Assim, o caderno colaborativo que deu origem à obra “O perfeito cozinheiro das almas deste mundo” se torna algo entre uma rede social e um blog. E os modernistas passam a trocar entre si mensagens e imagens, além de fazerem chamadas de vídeo e terem redes sociais. Esse esforço todo de imaginação tem como objetivo trazer os modernistas para mais perto dos jovens que só os conhecem através das escolas, em geral em aulas enfadonhas.

Acostumados que estamos a ver o ator Paschoal da Conceição interpretando Mário de Andrade no cinema, na TV e até no Carnaval, quando vemos um Mário mulato (Bruno Lourenço) na série temos um choque. Com essa identidade racial, vem um Mário mais militante do que ele provavelmente conseguiu ser em vida: na série, ele confronta as ideias racistas de Oswald de Andrade – nenhum parentesco – e cita nosso escritor-mor negro Machado de Assis e o presidente negro Nilo Peçanha.

Sobre a bissexualidade de Mario, que já foi até tema de exposição, se mostra mais do que se fala. Além de Mario, outro personagem negro é Babi, jornalista bastante combativo. Menotti Del Picchia (Johnnas Oliveira), por outro lado, é mais conservador em sua visão de mundo.

Outra modernidade narrativa impensável há alguns anos é o hoje amplamente divulgado caso da namorada de Oswald de Andrade (Ivan Arcurshin) que morreu vítima de um aborto clandestino. De gênio da literatura a “macho tóxico”, a reputação de Oswald vem sendo modificada conforme conhecemos outras facetas deste ser humano tão complexo.

A minissérie tem até uma vilã – ou no mínimo uma figura sinistra: Magda (Regina Braga), diretora do conservatório onde Mário leciona. De mentalidade conservadora, ela não gosta da “segunda profissão” do mestre, e fica chocada com os poemas por ele escritos. É uma personificação perfeita do “burguês-níquel”, para tomar emprestado um termo que o próprio Mario escreveu em seu poema “Ode ao Burguês”, que a Semana combatia.

 O contexto nos é dado por montagens com manchetes de jornais. Pelos dispositivos móveis, os personagens trocam mensagens anexando fotos que hoje são históricas, como a de uma Santa Casa cheia de doentes de gripe espanhola. Não há dúvidas de que a minissérie foi fruto de muita pesquisa e uma boa pitada de imaginação. Toda a parte ficcional foi feita após obtenção do OK das famílias dos modernistas.

“Aqueles dias”: quando a terra tremeu

Se há pouco tivemos um susto com um alerta de terremoto na cidade de São Paulo, o tremor de terra de 1922 veio sem avisar. Na madrugada de 27 de janeiro de 1922, a terra tremeu na capital paulista e em municípios ao redor. Era como um prenúncio do que aconteceria com a Semana de Arte Moderna: ela também veio para chacoalhar e perturbar a calmaria.

O historiador Bruno Leal (UnB) entrega algo inovador: um livro que é, ao mesmo tempo, um guia para a seleção do mestrado em História e uma introdução ao universo do mestrando e da mestranda. Com linguagem simples, Leal explica tudo o que você sempre quis saber sobre o mestrado em História, mas teve medo de perguntar. Leia no computador, no tablet, no Kindle ou celular. Confira aqui.

“Aqueles Dias” foi criada por Helio Goldsztejn e arrancou elogios do público quando foi exibida pela primeira vez dentro da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ela chega na TV Cultura, TV pública e aberta, em uma tentativa de ter um público mais amplo, o que vem de encontro com a vontade de Goldsztejn de popularizar os nomes do modernismo. Ele vê bem o paralelo entre nosso cotidiano e aqueles dias, conforme comenta em entrevista para a Veja SP:

“Quando se juntaram, os modernistas queriam mudar as estruturas vigentes. Cem anos depois, vivemos num país com a mesma vontade. Eles viveram a gripe espanhola, nós vivemos a covid. A mesma polarização acontecia lá atrás, o contexto da guerra… São histórias com um paralelismo gigantesco”

Colocar palavras na boca e smartphones nas mãos dos modernistas pode parecer sacrilégio. A farra de amigos que deu origem a um evento revolucionário para as artes brasileiras só podia ser recontada com irreverência. Confesso que eu mesma fiquei com um pé atrás com a proposta modernizante, mas abracei-a e me diverti, além de aprender algumas coisas. E você também pode se deliciar: a minissérie completa está disponível no YouTube da TV Cultura.


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