A primeira aula de história do ano letivo

Reflexões sobre Ensino de História e algumas estratégias para conquistar os alunos no primeiro dia de aula.
9 de fevereiro de 2017
Giz
A estratégia do professor no primeiro dia de aula é fundamental. Imagem: Bruno Leal.

Quando da primeira aula de história do ano, depois da tradicional apresentação, a maioria dos professores usa seu tempo com a tradicional “chamada da turma”, reconhecimento e apresentação, seguida de um “descompromissado” bate-papo. Muitos consideram este o melhor método para iniciar um processo de interação. Já o contrário poderia estimular a dispersão, criar um cenário para possíveis conflitos e fomentar desvios disciplinares, já que parte dos alunos não está participando da atividade.

Minhas leituras dos tempos de graduação foram essenciais para ditar meu ritmo quanto à organização de um plano de aula para o primeiro contato: Michael Renov (1981), Dermeval Saviani, Elza Nadai, Circe Bittencourt, Conceição Cabrini entre outros, essenciais aos anos 1980/1990, mas não para a atualidade. No entanto, continuei minha formação de forma independente, o que me favoreceu a aprender e aplicar novos métodos e conceitos. Este é um processo de formação individual que deveria ser contínuo, mas, ignorado na atualidade por muitos, já que consideram a teoria recebida como suficiente, assim como a “rala” prática recebida, como afirma Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas.1

Em 1996, Sonia Nikitiuk reuniu pela Editora Cortez um pequeno número de métodos que reformularam a prática do ensino de História em sua época e que ainda podem ser considerados como atualíssimos. Dois destes textos foram ao encontro do que em sala de aula transformei em prática comum nos anos 1990, como o de Paulo Knauss e o de Ubiratan Rocha, que abordavam tópicos fundamentais para o exercício de uma aula considerada “sedutora”.

No caso de Knauss, o autor nos convidava a tornar a “sala de aula um lugar de pesquisas”, um laboratório, tendo basicamente o documento como um “problema” e visando a construção do conhecimento. Essa prática favorecia professores que trabalhavam com pesquisa histórica, além de submeter a memória do fato a uma avaliação atualizada e cuja identidade também poderia encontrar-se presente no cotidiano. Como o próprio Knauss designava, era “um caminho privilegiado para a construção do conhecimento” com os próprios discentes em sala de aula.

A primeira aula de história do ano letivo 1

Glauber, um professor de história de 39 anos, entra em um túnel de sua cidade e nunca mais consegue sair de dentro dele. Ele não foi assassinado e nem sequestrado. É que o túnel simplesmente não tinha fim. Neste conto de terror psicológico, o historiador Bruno Leal explora medos e ansiedades modernas. Você nunca entrará num túnel da mesma forma. Clique aqui para conferir.

Já Rocha, nos convidava a “reconstruir a história a partir do imaginário do aluno”, processo que se integrava de forma correlata à proposta metódica de Knauss como exercício de interação de fatos com as práticas cotidianas em nossa sociedade. Para Rocha deveria ocorrer uma “discussão permanente do que consideramos como história” e qual a sua serventia em nossa sociedade. Fatores que, para muitos professores, são considerados “irrelevantes”. O professor deve “construir oportunidades para a discussão do conhecimento” precisamente a partir de seu local de trabalho, pois o discente não pode ser considerado uma “tabula rasa”; deve desenvolver pensamentos objetivos, confrontar os elementos apresentados e observar sua relevância para o estudo da sociedade. O professor deve assim fugir do imobilismo submetido pela prática da imposição de seu discurso que conduz ao controle do grupo e suprime a liberdade da permuta de informações. “Devemos oxigenar a prática docente”, destaca o autor.

Há alguns anos, desenvolvi uma prática comum para as primeiras aulas nos sétimos anos, combinando as propostas metodológicas de Knauss e Rocha, que se iniciava pela distribuição de um texto atraente do livro didático destinado aos alunos. Procurava, segundo a leitura do mesmo, desvendá-lo, dissecá-lo, para que o aluno sentisse a cada palavra a medida de sua intensidade, em um crescente onde cada ideia conduzia a uma permuta de resultados primários, confrontos ou mesmo à produção de novas etapas conclusivas, em que cada qual se sentia como em um cenário investigativo procurando saber a identidade do autor.

Porém, nos últimos anos foi indicado pela instituição de ensino como material didático para as aulas de História o livro de Patrícia Ramos Braick. Iniciei assim sua leitura, processo que considero essencial aos professores a partir do momento da indicação do material didático, mas fato que não ocorre a jovens recém-saídos das universidades – não realizam a formação desejada sobre o material a ser trabalhado, uma essencialidade pedagógica. Neste material, a presença de um texto me chamou a atenção, uma tessitura montada por Hilário Franco Jr., ex-aluno de Jacques Le Goff. Era um fragmento de sua publicação “A Idade Média está muito mais presente no nosso dia-a-dia do que imaginamos”, publicado na Revista de História (2008). Gravei o fragmento de texto em áudio e o distribuí por meio de Bluetooth para os celulares dos alunos, fato que os assustou, pois havia uma proibição no estabelecimento. Solicitei então que ouvissem com atenção e que anotasse em seus cadernos tudo aquilo que eles reconheciam como parte de seu cotidiano. Ao final, destaquei que o texto foi criado na Idade Média, época observada por estudiosos como de “escuridão” técnica e científica.

Finalmente apresentaram seus resultados no quadro da sala, em grupo ou individualmente, assustados pelo fato de que estas “invenções” possuíam entre dez e sete séculos e ainda se encontravam presentes pelo nosso cotidiano. Observaram que a construção deste conhecimento não se perdera no tempo, sendo ainda tão essenciais e tão consistentes em nossa época. O livro deixou de ser um obstáculo: passou a ser conquistado, texto a texto, imagem a imagem, construindo conhecimentos a partir da curiosidade estabelecida por um cenário de época. Nesta experiência, vivenciaram a História como ciência; sentiram-se pesquisadores, alguns até mesmo alegaram o desejo de ser um historiador, o que acredito que foi uma grande conquista para uma primeira aula.

Notas

1. GATTI, Bernadette; DE SÁ BARRETTO, Elba Siqueira. Professores do Brasil: impasses e desafios. Unesco Representação no Brasil, 2009.

Referências

BRAICK, Patrícia Ramos. Estudar História, das Origens do Homem à era Digital. Editora Moderna: São Paulo, 2012.

GATTI, Bernadette; DE SÁ BARRETTO, Elba Siqueira. Professores do Brasil: impasses e desafios. Unesco Representação no Brasil, 2009.

NIKITIUK, Sonia L. (Org.). Repensando o Ensino de História, Questões de Nossa Época. Cortez Editora: São Paulo, 1996.

Como citar este artigo

FILHO, Oazinguito Ferreira Silveira. A primeira aula de história do ano letivo. (Artigo). In: Café História. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/a-primeira-aula-de-historia-do-ano-letivo/. Publicado em: 9 fev. 2017. ISSN: 2674-5917.

Oazinguito Ferreira Silveira Filho

Licenciado em História pela Universidade Católica de Petrópolis (1982) e é Mestre em Educação por esta mesma universidade (2012).

Livro em destaque

"Várias faces da Independência" foi destaque em 2022, ano do bicentenário da independência brasileira. Reunindo os maiores especialistas no tema, o livro consegue falar de forma didática e problematizadora sobre as batalhas, as elites, as classes subalternizadas, a cultura e muitas outras dimensões de nosso complexo processo de independência. Livro de especialistas para não-especialistas. Clique na imagem para conferir o livro.

Nossa agenda

fevereiro 2025
D S T Q Q S S
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
232425262728  

Leia também